08 março 2006

Mulher

Adélia Prado
Hoje me deu tristeza,
sofri três tipos de medo
acrescido do fato irreversível:
não sou mais jovem.
Discuti política, feminismo,
a pertinência da reforma penal,
mas ao fim dos assuntos
tirava do bolso meu caquinho de espelho
e enchia os olhos de lágrimas:
não sou mais jovem.
As ciências não me deram socorro,
não tenho por definitivo consolo
o respeito dos moços.
Fui no Livro Sagrado
buscar perdão pra minha carne soberba
e lá estava escrito:
"Foi pela fé que também Sara, apesar da idade avançada,
se tornou capaz de ter uma descendência..."
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero.
Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo,
porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.

4 Comments:

At 8/3/06 16:32, Blogger Bianca Marchezano said...

marietinha,
meu coração é enormeeeeeeeeeee
e tenho nele um espaço bem grande, reservado só pra vc! esse ninguém tira! é só seu! visse??? hehehe
te amo linda

 
At 9/3/06 06:01, Anonymous Anônimo said...

Coisa linda!!!!!! Você e Adélia.

Beijos,

 
At 3/3/07 04:19, Anonymous Anônimo said...

Keep up the good work »

 
At 23/4/07 20:05, Anonymous Anônimo said...

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